Sou mais que um número
Há uns meses, eu assisti a um vídeo de Mikannn (e um texto na revista Dazed) falando sobre não ter contas em aplicativos de hobby-tracking (àquelas em que você marca livros, filmes, séries, animes, etc. lidos/assistidos) e fiquei bastante pensativa sobre o que ela falou. Primeiro porque ela relatou alguns casos de pessoas que não trabalhavam com a internet e se viam 'presas' à esses aplicativos e segundo porque eu nunca tinha parado para pensar sobre como, hoje em dia, nossas vidas são vividas no off-line a partir do que consumimos e validamos no mundo on-line (se é que existe separação entre o que é OFF e ON).
Além disso, é bastante comum que coloquemos metas - quase sempre, difíceis de atingir - para o que iremos consumir no dia a dia e no nosso tempo livre; como se tivéssemos que ser produtivos o tempo inteiro. Sendo assim, não é de se espantar que a comparação e a competição entrem como elementos centrais da nossa vida, afinal, precisamos assistir o filme que todo mundo está comentando no momento ou ler aquele livro que hitou no tiktok na semana passada (realidade: não precisamos).
Apesar de ter algumas contas em aplicativos/redes sociais destinadas ao monitoramento de hábitos e hobbies (alô letterboxd & maratona) e por mais que consiga lidar com elas tranquilamente, muitas vezes, me sinto mal por não atualizar os meus quatro-últimos-filmes-assistidos no letterboxd, por estar empacada no mesmo livro há meses e sem atualizar o maratona (alô mestrado) ou, até mesmo, por não ter preenchido a semana de treinos no gymrats como eu gostaria. Percebi, dessa forma, que estava vivendo quase que uma cobrança contínua para quantificar a minha vida e ter números sobre como aproveito o meu tempo livre, meus hobbies e como cuido da minha saúde. Como se eles só se tornassem válidos a partir do momento em que eu registro uma ação em algum app e o avalio com sabe-se lá quantas estrelas. E, na real, isso não faz o menor sentido.
Sim, eu sei que esses aplicativos ajudam a nos manter minimamente organizados em alguns aspectos da vida ou, como no caso do gymrats, auxiliam as pessoas a manterem o hábito de se exercitarem. Mas fico pensando, será que a gente realmente precisa de uma conta on-line para isso? Será que eles funcionam apenas como uma ferramenta para a vida contemporânea ou será que nós estamos transformando os nossos hobbies e o que nos tornam humanos em um check-list que vai nos apresentar um número sobre o que consumimos e fazemos no nosso tempo livre?
Obviamente não estou criticando o uso desses aplicativos ou o compartilhamento desses tópicos, até porque eu também o faço. A ideia principal aqui é pensar & repensar o uso dessas ferramentas/redes sociais/aplicativos e cogitar - talvez - a possibilidade de viver sem quantificar tanto o que nos faz ser o que somos: humanos que têm hobbies apenas para relaxar e se divertir.
Depois de ter pensado MUITO sobre o assunto, decidi encerrar algumas contas e diminuir o uso de outras para tentar assistir, ler e ir academia apenas como parte do meu dia e da manutenção da minha saúde. Sem números, sem cobranças e sem competição. Afinal, eu não preciso monitorar minhas ações e hábitos para, de fato, viver.
