D E S C A M A R

#4 - sobre um celular quebrado e a fugacidade moderna

Antes mesmo de completar 1 ano e seis meses de adquirido, meu celular começou a mostrar problemas: o led da tela queimou e fez surgir listras rosa, verde e branco. Primeiro uma, depois duas, três… e hoje são 10 linhas coloridas que atrapalham bastante a visualização e uso do celular.

Faz um tempo que ando cogitando trocar de aparelho mas, devido ao financeiro e não saber como vou pagar minhas contas daqui uns meses (fim da bolsa do mestrado — na qual precisei me demitir para obter), tinha medo de arriscar e gastar uma grana que eu não saberia se teria. A outra opção era trocar a tela do meu celular e gastar um dinheirão numa tela original ou arriscar numa tela falsa que poderia quebrar a qualquer momento. Nesse sentido, optar por uma tela original era o mais viável.

Como nem tudo são flores, eu sabia que, caso trocasse apenas a tela do celular, existia a possibilidade de, posteriormente, surgir um novo defeito no celular. Isso me faria gastar o equivalente a um celular novo apenas com ajustes e consertos, sendo assim, mesmo com medo, optei pela compra de um novo aparelho (que ainda não chegou) e adivinha só? Faz uma semana que meu celular-da-tela-quebrada resolveu que iria desligar do nada e descarregar em menos de 1h30min. Da noite pr’o dia, do mais absoluto NADA.

Obviamente, fiquei meio feliz porque me antecipei ao que poderia acontecer, mas, ao mesmo tempo, fiquei bastante chateada pensando em como todos os nossos esforços para adquirir um aparelho têm prazo de validade: 2 anos (ou 3 anos, se você tiver sorte). Depois desse período, se vire e compre um novo. Mas vem cá, é sério que essas big techs que gastam MILHÕES & MILHÕES para desenvolver uma IA — que ninguém se importa de verdade — não conseguem criar um aparelho que sobreviva mais de 2 anos e não obriguem seus usuários a jogar uma quantidade absurda de lixo eletrônico no mundo em tão pouco tempo? (e sim, eu sei que o capitalismo funciona assim, mas não deixa de ser ridículo a forma como nós apenas nos habituamos a essa realidade tão decadente!)

Com toda essa situação, precisei lidar novamente com a fugacidade do mundo em que vivemos; onde tudo é efêmero e se desgasta da noite pr’o dia. Inclusive, podemos ir além da vida útil dos eletroeletrônicos ao pensar também nos inúmeros conteúdos que consumimos e que se tornam, cada vez mais, rápidos. E sendo sincera, eu estou cansada! Cansada de depender de empresas que, definitivamente, não se importam com seus públicos e com o meio ambiente, cansada desse novo mundo on-line onde estamos sempre atrasados correndo atrás sabe-se lá do quê, cansada da vida útil dos eletrônicos e da rapidez das trends, vídeos e músicas que, hoje em dia, já têm como base a duração de um vídeo no tiktok ou instagram.

EU QUERO VIVER SEM PRESSA !

E sei que esse não é apenas um desejo meu. Hoje em dia, muitas pessoas estão voltando a ter hobbies manuais ou analógicos; fotografando com câmeras que precisam de um filme; escrevendo a mão num diário ou anotando os filmes e livros num caderno, quase como um letterboxd físico. E o motivo? D-E-S-A-C-E-L-E-R-A-R. Ter tempo para viver e apreciar a vida é um luxo que nós raramente temos acesso, mas eu quero ter controle sobre a minha própria vida. Quero viver sem ter uma big tech seguindo meus rastros e me impondo suas vontades.

P.S. Umas horas depois de eu escrever esse texto, percebi que, na verdade, a bateria do meu celular estava estufada e poderia ter explodido a qualquer momento. A crítica continua válida.