As noites me assustam desde que eu era criança
As noites me assustam desde que eu era criança. Mas, na verdade, não é a noite em si, sabe? E sim os pensamentos que me surgem durante esse período de tempo.
Lembro que, quando criança, pensar em ir para a escola no dia seguinte, em passar a tarde na casa da minha tia ou brincar com minhas amigas me deixavam extremamente assustada e ansiosa. A sensação era de viver sob um céu cinza escuro e de pisar em um chão úmido, onde uma coisa horrível poderia acontecer a qualquer momento: alguém poderia invadir a minha casa, o gás poderia explodir tudo e eu, bom, eu poderia morrer. Tudo era frio.
É claro que tudo isso acontecia apenas nos meus pensamentos. O medo e a ansiedade passavam no momento em que eu acordava e via o sol brilhando. Quando amanhecia, não havia invasão de casas, gás explodindo e, muito menos, mortes. A vida parecia possível.
Não sei em qual momento da minha vida eu supus que esses pensamentos noturnos iriam cessar, mas imaginava que -– em algum momento -– a maturidade iria tirar eles de mim. Acontece que, nesse grande meio tempo, eu fui crescendo. Me tornei adolescente e adulta, passei a adorar as noites e… eles continuaram comigo. Toda vez que anoitece, os dias seguintes se tornam um pesadelo. O céu cinza escuro e o chão úmido voltam novamente e me percebo perambulando por pensamentos frios e desastrosos.
Há uns dias, enquanto me banhava para dormir, comecei a pensar em uma viagem que farei num futuro próximo e foi tão aterrorizante que pensei em desistir (mesmo sabendo que eu não quero desistir de verdade). Lidar com o futuro me causa um desconforto absurdo no peito e na mente, como uma atmosfera distante e assombrosa, onde você está sozinho e sabe que precisa se proteger... mas se proteger de quê?
Nesse mesmo dia em que estava pensando nessa tal viagem, tentei me lembrar que eu não preciso me apavorar. É só a noite agindo sobre mim, eu já sei como funciona e sei que no dia seguinte, quando estiver claro, as coisas voltarão a fazer sentido novamente. Contudo, mesmo tendo consciência sobre essas questões, meu corpo deita para dormir enquanto meu pensamento caminha sob aquele céu cinza, sentindo o chão úmido sob os meus pés e o vento frio batendo com força nos meus braços; me forçando a me abraçar e chorar quietinha com medo do que está por vir –- até o sol raiar novamente.
